Nudes em tapeçaria: uma entrevista com Erin Riley

Postado porAmilton Longo Paglia em

Falou Tapeçaria, você logo imagina aquela coisa de casa de vó: design geométrico, aquele bordô+marrom+verde escuro em arabescos e, no mááximo, alguma cena provençal. Agora, fala 'nudez', 'vibradores' e 'garotas tatuadas' na mesma frase que 'tapeçaria' e parece que alguém digitou errado. Pois não. Erin M. Riley, uma artista do Brooklyn, se apropria da técnica antiga e usa como tema imagens de selfies eróticas da internet (aquelas nudes que todo mundo fica pedindo para você mandar). Nessa entrevista que concedeu à Dazed (e que traduzimos aqui), a artista explica melhor seu trabalho e motivações. Erin Riley   Erin Riley   Você pode falar um pouco mais sobre o seu processo? De onde você tira as imagens e como transforma elas em tapeçaria? Erin Riley: É bem trabalhoso. Meu trabalho começa ainda na internet, juntando imagens do Tumblr, Instagram, blogs, minhas próprias fotos, Facebook, Google Imagens etc. Eu procuro sempre formas e imagens bonitas que fiquem bem no formato da tapeçaria. As imagens são então tracejadas e projetadas para ficarem do tamanho de um papelão grande, que é usado como um molde com o desenho. Aí começa o processo de fazer o tear, passar os fios por ele, tingir os novelos de fio e tecer tudo. Aí, depois que eu passei horas tecendo as peças, elas são cortadas do tear e coladas em telas. Erin Riley   E como você chegou nesse negócio de arte têxtil? Erin Riley: Eu aprendi a costurar na escola. Ganhei minha primeira máquina de costura aos oito anos de idade e fiquei obcecada com costurar e comprar tecidos. Costurei roupas até a faculdade, quando eu aprendi a tecer, o que abriu meus olhos para toda essa coisa de tapeçaria. Enquanto não estamos tirando alguma, a gente costuma se perguntar qual é a importância cultural/social da selfie. O que você acha? Erin Riley: Como uma mulher de quase 30 que vem documentando a si mesma desde que tinha mais ou menos 15 (das webcams pixeladas horríveis até os iPhones), já pensei bastante sobre isso. É claro que há muitos problemas que vêm de ter isso apenas online, mas como alguém que tem tanto uma vida online como offline saudáveis, entendo a necessidade de compartilhar imagens de si mesmo e do próprio corpo. Quando você vai a algum museu, sempre vê esculturas e pinturas de nus que datam de 1500 e bolinha. Enquanto a pintura figurativa clássica é um pouco antiquada, eu acho que as selfies são uma perspectiva bem interessante no Nu Clássico. Como humanos, estamos sempre procurando amor e aceitação; é como se a gente quisesse lembrar a nós mesmos que existimos fora de nossas cabeças. Estar em contato com nosso eu físico também ajuda a ter essa conexão com os outros. Erin Riley   Erin Riley   O que você acha das mulheres das suas obras? Erin Riley: Eu sou a mulher das minhas obras, então eu amo elas, critico e apoio, estou vivendo através delas e tudo o mais. Ser uma mulher é um trabalho complicado, mas no fim estou bem feliz de ter o acesso que tenho aos momentos mais íntimos entre as pessoas. Seus trabalhos têm uma sensualidade intensa. Tem alguma coisa de inerentemente erótico no tear, na selfie ou em você? Ou o erotismo do seu trabalho, na verdade, está nos olhos de quem vê, como um voyeur, observando um momento 'privado'? Erin Riley: Eu acho o corpo feminino muito lindo, e tecer curvas é bem mais satisfatório que tecer linhas retas, então eu curto bastante o processo. Sentar com uma imagem à minha frente e ficar horas prestando atenção em todos os centímetros do corpo de alguém me permite uma proximidade que, na verdade, só o sexo permitiria. A selfie, pra mim, é relevar enquanto oculta – o erotismo está aí, nessa provocação. Erin Riley   Erin Riley   A selfie e a tapeçaria parecem meio opostas por natureza. Enquanto a selfie é feita para não durar muito (e sumir em algum Snapchat da vida), a tapeçaria é o produto de um processo lento e deliberado, que deve durar por gerações. Como você navega entre essas interseções às vezes meio complicadas? Erin Riley: Como a maioria das meninas (e provavelmente os homens também) sabem, não basta uma tentativa para se ter a melhor selfie: é um processo. Eu vejo bastante correspondência entre essa preparação para tirar uma selfie e encontrar o melhor ângulo com a preparação para tecer. Enquanto a imagem precisa ser consumida rapidamente, quem gostou muito pode guardá-la por meses para olhar de novo ou compartilhar com amigos. Eu sempre me senti meio vulnerável por colocar uma imagem no mundo depois de compartilhar ela. No fim, meu trabalho com tapeçaria é reflexo da minha idade e personalidade. Mesmo que as imagens não sejam tradicionais para a tapeçaria, eu também não sou – então, ainda que tenha me preocupado muito em outras épocas por não estar numa comunidade de artesãos pelo meu uso não convencional do meio, acabei sendo aceita como alguém que está dando continuidade à tradição de tecer entre as gerações mais novas. E o que vem agora? Erin Riley: No momento, estou trabalhando em trabalhos maiores, e estou apaixonada pelas tapeçarias grandes. Então, tenho um monte de peças épicas planejadas para os próximos meses. Paralelo às tapeçarias enormes que levam meses para ficarem prontas, estou começando um projeto que estava nos planos há bastante tempo. Eu quero tecer cenas de filmes pornô bem do momento de clímax do espectador. Como serão, em sua maioria, cenas de cor meio borrada dos vídeos, vai ser bem divertido de fazer. Erin Riley   Erin Riley   Fonte

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